O que é Bitcoin e como os criptoativos vão mudar sua vida

Tempo de leitura: 23 minutos

Por que nasceu o Bitcoin?

Seu dinheiro, seu trabalho e até sua identidade não serão mais os mesmos por causa do Bitcoin. Por isso não é possível compreender Bitcoin olhando apenas seu funcionamento técnico, nem apenas o comportamento dos mercados. Bitcoin é mais do que tecnologia, é mais do que uma moeda. É a fantástica história de como um grupo de ativistas digitais pode mudar o mundo. A extensão e o impacto dessa mudança ainda não se pode sequer estimar. Porém, podemos ter uma ideia melhor do futuro se soubermos o que moveu — e ainda move — esses ativistas, e se observarmos como instituições tradicionais estão se adaptando às mudanças promovidas por esse grupo.

Bitcoin nasceu como uma ideia engenhosa para resolver um problema que surgiu com a difusão da Internet comercial: como dar às pessoas uma moeda que funcionasse no mundo digital tal como o papel-moeda funciona no mundo real?

Para gastar R$ 5 no mundo real, você não precisa de uma conta em banco, nem de cartão de crédito. Basta usar uma cédula. Na Internet isso não era possível. Sem cartão de crédito, ou uma conta bancária, nada se podia comprar ou vender pela web. Por isso, a economia digital tinha um porteiro imprescindível: o sistema financeiro internacional.

Um grupo de ativistas digitais, porém, nunca se conformou com o domínio de governos nacionais e instituições financeiras sobre a Internet. Para eles, a Internet nasceu como uma utopia: o espaço onde se construiria a aldeia global. Segundo esses ativistas, o mundo digital deveria ser um espaço sem fronteiras, de liberdade e tolerância. Mas o avanço tecnológico das últimas décadas deu a governos e corporações ferramentas de vigilância e controle nunca antes vistos na história da humanidade. Sociedades distópicas criadas pelo uso indiscriminado dessas ferramentas são um tema recorrente em um gênero de ficção científica conhecido como cyberpunk — Matrix e Blade Runner são exemplos desse gênero. Contra essas ferramentas de vigilância e controle, e como meio de proteção da privacidade, esses ativistas construíram diversas soluções tecnológicas baseadas em criptografia. Por essa razão, esses ativistas ficaram conhecidos como cypherpunks.

Em 2008, o mundo vivenciou um escândalo que parecia saído dos romances cyberpunks: uma elite gananciosa teve ganhos astronômicos ao manipular o sistema financeiro internacional e gerar uma das piores crises econômicas da história, cujos efeitos perduram até hoje. Nessa época, no meio cypherpunk, uma pessoa (ou um conjunto de pessoas) sob o pseudônimo de Satoshi Nakamoto divulgou uma proposta audaciosa de dinheiro eletrônico entre pares (peer-to-peer e-cash), que utilizava de forma inovadora vários conceitos e tecnologias criados anteriormente pelos cypherpunks. Satoshi chamou essa proposta de Bitcoin. Seu objetivo, criar uma forma de transacionar valores completamente descentralizada, que pudesse prescindir do sistema financeiro internacional. Dinheiro internacional sem bancos e sem governos — a utopia cypherpunk perfeita.

Mal sabia Satoshi, porém, que sua proposta daria certo cedo demais. Antes que os cypherpunks conseguissem criar um conjunto de tecnologias que viabilizasse o uso do Bitcoin por pessoas sem conhecimento técnico, o dinheiro eletrônico criado por Satoshi se tornou um investimento que proporcionou ganhos astronômicos. Bitcoin encheu o noticiário (e o imaginário) com estórias de pessoas que ficaram ricas do dia para a noite. Milhares de pessoas passaram a comprar bitcoins. Só que, ao contrário do que desejavam os cypherpunks, esses novos usuários não tinham a posse dos seus bitcoins. Assim como o dinheiro no mundo real está depositado em bancos, os bitcoins do mundo virtual estão depositados nas exchanges. O valor do bitcoin passou a ser medido por sua cotação em dólar, não pela utilidade como mecanismo de troca entre pares. Instituições financeiras tradicionais hoje têm produtos de investimento em bitcoins, usando mecanismos de especulação similares aos que provocaram a crise financeira de 2008. Bancos e governosreplicaram a tecnologia que viabiliza o Bitcoin para testar novas formas de organização e controle de informações de usuários. Estelionatários usaram o Bitcoin para promover esquemas de pirâmide. Aventureiros captaram bitcoins para financiar empresas que nunca saíram do papel. Cibercriminosos passaram a sequestrar dados de empresas e governos e exigir resgates pagos em bitcoins. Enfim, o Bitcoin deu origem a um novo ecossistema que compartilha dos mesmos vícios do sistema financeiro internacional que buscava substituir.

Os cypherpunks, contudo, ainda não desistiram. Com a incrível valorização e popularização do Bitcoin, eles nunca tiveram tanto dinheiro e poder à disposição. Mas eles não estão sozinhos, diversas implementações da tecnologia do Bitcoin estão ocorrendo em países, cidades, bancos, startups, universidades… A economia do futuro está sendo construída hoje, e será resultado da soma das diversas visões e motivações por trás do desenvolvimento da tecnologia criada por Satoshi Nakamoto.

Por que um bitcoin tem valor?

Uma crítica comum ao bitcoin é que se trata de uma moeda sem lastro. Porém, desde o fim do padrão-ouro após a Primeira Guerra Mundial, as principais moedas do mundo não tem lastro. O dólar não tem lastro, o real não tem lastro, o euro não tem lastro, o yen não tem lastro… A primeira coisa a se ter em mente é que dinheiro é na verdade um meio de comunicação (isto é, um meio de transmissão de informações) — isto tem inclusive importantes implicações para a nossa psiquê ao lidar com valores monetários. O papel-moeda emitido por governos nacionais é um registro dessa comunicação, mas não é o único — na verdade, apenas 8% do dinheiro em circulação no mundo existe na forma física. O restante é a chamada moeda escritural, e existe apenas nos livros de registro de governos e instituições financeiras. A maior parte da moeda escritural existe hoje em banco de dados eletrônicos. Ou seja, o bitcoin não é a primeira moeda eletrônica. O dinheiro que você guarda no banco já é uma moeda digital e sem lastro. Mais de 90% do dinheiro em circulação no mundo existe apenas como um registro em um banco de dados. O bitcoin nesse quesito não é muito diferente do dinheiro que você está acostumado a usar. Mas o bitcoin é o primeiro dinheiro digital que consegue reproduzir as características de uma moeda física.

Para reconhecer uma moeda física, basta olhar e tocar. Em uma cédula de dinheiro, você vê o registro de quanto essa cédula vale e o dono é reconhecido pela posse física da cédula. Obviamente, há falsificação de dinheiro — mas a falsificação é justamente a reprodução das características que permitem identificar uma moeda física (impressão em papel especial, marca d’água, brasão do governo, assinatura oficial, etc.). Você confia que uma moeda é legítima por causa de suas características físicas.

Um registro escritural da moeda, porém, funciona de forma diferente. Ao ver o saldo de sua conta corrente, você não confia nas características físicas do papel em que o saldo está impresso ou da tela do computador que acessa o sistema do banco. Você confia no banco.

Até a invenção do Bitcoin, uma moeda eletrônica somente podia funcionar da mesma maneira que funciona o saldo de sua conta bancária. Uma pessoa de confiança era necessária para guardar os registros da moeda e assegurar sua validade. O que é registrado e o que é verdadeiro é também controlado de forma centralizada por uma entidade, e todos confiam nessa entidade.

O Bitcoin é inovador por ser o primeiro registro público, global e descentralizado de valores monetários. Você não precisa mais de alguém para dizer que a moeda eletrônica existe. Qualquer pessoa, de qualquer lugar, pode acessar os registros do Bitcoin — por isso, qualquer pessoa pode verificar se outra pessoa é de fato dona de determinado valor em moeda eletrônica. Além de ser público e descentralizado, os registros no Bitcoin são indeléveis, históricos e permanentes. É o primeiro banco de dados com todas essas características. Na prática, essas características permitem que você abra uma espécie de “conta corrente” diretamente no banco de dados do Bitcoin, sem precisar de ninguém. Por isso é que o Bitcoin pode criar a primeira moeda digital capaz de substituir uma cédula de papel-moeda: o bitcoin. Assim como você não precisa de um banco para ser dono de uma cédula de R$ 5, você não precisa de um banco para ser dono de um bitcoin.

A revolução tecnológica do Bitcoin não é só blockchain

Atenção aqui, pois isso é motivo de muita confusão. Você deve diferenciar bitcoin (com b minúsculo) de Bitcoin (com B maiúsculo). O Bitcoin é a tecnologia criada por Satoshi Nakamoto e desenvolvida por uma comunidade digital liderada pelos cypherpunks. Um bitcoin é uma unidade do dinheiro eletrônico que usa aquela tecnologia. Na verdade, um bitcoin nada mais é do que um registro no Bitcoin. Porque o Bitcoin usa criptografia para assegurar a veracidade e idoneidade das transações com esse dinheiro eletrônico, o bitcoin ficou conhecido como a primeira criptomoeda. O código-fonte do Bitcoin foi tornado público por Satoshi Nakamoto e serviu de base para que inúmeras outras criptomoedas fossem criadas. Portanto, bitcoin é uma criptomoeda que usa o Bitcoin.

Também gera confusão a referência à tecnologia do Bitcoin pelo nome blockchain. Esse termo não foi criado por Satoshi Nakamoto e diz respeito a apenas uma das características do Bitcoin. Na verdade, diz-se que o Bitcoin é um protocolo: isto é, uma série de instruções pré-definidas que tornam possível um determinado tipo de comunicação entre computadores. O Protocolo Internet é outro exemplo de tecnologia similar.

Blockchain é uma tecnologia de registro distribuído (ou DLT, do inglês distributed ledger technology). Há outras DLTs além de blockchain, e há criptomoedas (e criptoativos — que veremos abaixo) que não usam blockchain. O Bitcoin é inovador por combinar blockchain com criptografia de chaves públicas e privadas e com prova de trabalho (PoW, do inglês /proof-of-work/) como estratégia para integridade dos dados registrados. Portanto, Bitcoin é blockchain + criptografia de chaves públicas e privadas + PoW. Se você não entendeu nada, não se preocupe, vou explicar o que é cada uma dessas características e por que elas são importantes para uma moeda digital.

O uso de um registro distribuído é uma forma de resolver um dos maiores problemas de uma moeda digital: evitar o duplo gasto. Se você tem uma nota de R$ 5, ou a nota está contigo, ou está com outra pessoa. Duas pessoas não podem ter a mesma nota. No mundo digital, porém, isso não é verdade. Pense em uma fotografia digital: você pode mandar para quantas pessoas você quiser (lembra como era diferente quando fotografias eram impressas em papel?). Dinheiro é uma representação de escassez, e o mundo digital é caracteristicamente abundante — portanto, problemático para qualquer dinheiro digital.

Antes do Bitcoin, o problema do duplo gasto era a principal razão para que o registro de moedas digitais fosse feito de forma centralizada por uma entidade confiável. Em uma transação bancária, o banco deduz um real da conta de João, e adiciona um real na conta de José. Sem o banco, José não teria como saber se o real que recebeu de João na verdade já não tinha sido enviado para Joaquim, ou gasto com Joana e Jéssica… Uma DLT resolve esse problema ao dar uma cópia do registro para todos os participantes. Com uma DLT, João, José, Joaquim, Joana e Jéssica têm uma cópia do registro de quantos reais cada um deles têm em suas contas, e a cada transação entre eles essas cópias são atualizadas. Se João gastasse o primeiro real com José, os outros saberiam que João não era mais dono desse real.

A blockchain é um tipo especial de DLT, porque além de ser um registro descentralizado, guarda as informações em blocos (block) encadeados (chain) de tal forma que é impossível mudar um registro sem mudar o bloco inteiro de registros, e é impossível mudar um bloco sem mudar toda a cadeia de blocos. Com a blockchain, o Bitcoin traz uma segurança adicional contra fraudes, pois é impossível fraudar um único registro. Alguém que queira fraudar o Bitcoin tem duas opções de ataque: fraudar o último bloco (isto é, fraudar todo o conjunto das últimas transações registradas no Bitcoin), ou fraudar toda a cadeia. Mas quanto mais se usa o Bitcoin, maior fica a blockchain (isto é, passam a existir mais blocos encadeados) e, por isso, mais seguro o Bitcoin fica.

A blockchain é um registro distribuído, logo está guardada não apenas em um, mas em milhares de computadores que rodam o protocolo Bitcoin. Quem desses milhares de computadores, então, é responsável por adicionar o último bloco na blockchain com o registro das últimas transações? Para isso serve a prova de trabalho (PoW). Qualquer dos computadores que rodam o Bitcoin pode, em tese, adicionar o último bloco na blockchain. Mas para adicionar esse bloco, o computador deve resolver um problema computacional complexo envolvendo as transações a serem registradas, e deve provar que resolveu esse problema — esta a prova de trabalho. O computador que primeiro apresentar a prova de trabalho é quem registra o último bloco. Em troca, o computador cobra uma taxa em bitcoins pelo registro das transações e ainda ganha novos bitcoins (que antes não existiam). Porque novos bitcoins são produzidos com o trabalho de registro de novos blocos, esse processo ficou conhecido como mineração. A mineração é um dos artifícios mais engenhosos usados por Satoshi para proteção do Bitcoin, pois o trabalho computacional envolvido é o mesmo que seria necessário para atacar a blockchain. Com a mineração, Satoshi criou um forte incentivo para que, ao invés de atacar, hackers usem computadores para contribuir com o Bitcoin.

Portanto, a combinação blockchain e PoW garante transparência e segurança ao Bitcoin. Todos podem ter uma cópia do registro das transações em bitcoin, todos podem conferir se uma transação é válida ou não, mas novas transações apenas podem ser validadas por aquele que primeiro apresentar a prova de trabalho. Mas como, então, eu posso submeter uma transação para ser validada? O que impede que um novo bloco seja registrado com uma transação em meu nome? E, se os registros são públicos e podem ser consultados por qualquer pessoa, por que dizem que o Bitcoin viabiliza transações anônimas?

O Bitcoin resolve essas questões pelo uso de chaves criptográficas públicas e privadas. Sempre que você acessa uma página na Internet cujo endereço começa com “https” (esse s no final é importante!), você está usando chaves públicas e privadas para identificar a autenticidade dessa página. Chaves públicas e privadas são seguras porque são geradas a cada par (pública + privada) por meio de uma operação matemática automatizada. Bitcoin usa chaves públicas e privadas para identificar o dono de um bitcoin. No jargão de quem usa criptomoedas, a chave pública é chamada de endereço. E a chave privada é chamada de… chave privada mesmo.

Funciona como o nome de usuário e senha de uma rede social como o Facebook ou o Twitter. A chave pública é como se fosse o nome de usuário, a chave privada, a senha. Qualquer pessoa pode consultar a chave pública, mas apenas você tem a chave privada. Assim como qualquer pessoa pode ir no Twitter do Bill Gates e ver o que ele publicou, qualquer pessoa pode consultar o saldo do endereço Bitcoin do Bill Gates e ver quantos bitcoins estão lá. Mas apenas o Bill Gates pode tuitar usando a conta dele, e apenas o Bill Gates pode gastar os bitcoins dele. Isto é, a menos que alguém roube a senha (chave privada) dele.

Quer dizer que você pode ir agora na blockchain e consultar o saldo da conta do Bill Gates? Sim, pode. Só tem um problema. Qual o endereço (chave pública) dele? Ninguém sabe (aliás, ele não é particularmente um fã do Bitcoin). É exatamente isso que dá anonimato aos usuários de Bitcoin. Como uma conta de fantasia no Facebook, você só é anônimo se ninguém sabe que a conta pertence a você.

A combinação de blockchain, PoW e chaves públicas e privadas foi o que permitiu ao Bitcoin ser tão seguro que, mesmo após 10 anos em funcionamento, ninguém conseguiu até agora fraudá-lo. O Bitcoin, apenas por ter existido por tanto tempo, é prova de que é possível gerenciar de forma segura dados na Internet sem a necessidade de uma entidade central. Isso muda o mundo.

O nascimento de uma nova economia digital

Satoshi Nakamoto distribuiu o código-fonte do Bitcoin como software aberto (open-source). Isso significa que qualquer desenvolvedor com o conhecimento técnico adequado (o que não é pouca coisa, já que são poucos com essa competência hoje no mundo) pode copiar o código, modificar e criar um novo projeto. O fato de ser um projeto aberto permite também que desenvolvedores do mundo inteiro possam colaborar para aprimorar o Bitcoin. E é exatamente isso o que ocorre: desenvolvedores do mundo inteiro estudam, copiam, mexem, aprimoram, e criam variações do Bitcoin.

Com isso, não apenas o Bitcoin se desenvolveu, como novos projetos surgiram. Primeiro vieram as criptomoedas alternativas ao bitcoin — conhecidas como altcoins. O Litecoin foi uma das primeiras altcoins, e se caracterizou principalmente por usar uma prova de trabalho mais leve (isto é, que exige menos esforço computacional). O Monero e Zcash são outros exemplos de altcoins dignos de nota, e objetivam dar maior privacidade e anonimato a seus usuários (e para isso propõem alternativas ao esquema de chaves público-privada usado pelo Bitcoin). Em geral, cada criptomoeda tem uma estratégia própria de distribuição de valores e de incentivos à mineração, com diferentes abordagens para controle de /inflação/ e gestão de recursos comuns. O possível impacto das criptomoedas na organização de um novo sistema financeiro internacional fez com que muitos afirmassem que a tecnologia do Bitcoin (especialmente a blockchain) está construindo a Internet das finanças.

Outros projetos exploram a possibilidade de registrar outros tipos de informação na blockchain que não apenas unidades monetárias. Assim, o nome criptomoedas passou a ser inadequado para abarcar também esses projetos, motivo pelo qual surgiu o termo criptoativos. O principal — e mais ambicioso — criptoativo hoje se chama ether, a unidade de valor do Projeto Ethereum. A blockchain Ethereum foi feita não apenas para registrar valores, mas para registrar programas de computador (chamados smart contracts — ou contratos inteligentes). Esses programas são feitos para rodar usando a capacidade computacional de todos os computadores que estejam rodando a blockchain Ethereum. Por isso, o Projeto Ethereum é na verdade um supercomputador mundial descentralizado, e os ethers representam o direito de usar esse computador. Porque representa um direito de uso atrelado a um ativo real (a capacidade computacional dos computadores na blockchain Ethereum), o ether é um criptoativo. Há diversos outros criptoativos, representando desde plataformas de transação de outros criptoativos, a estoques de bens como petróleocafé e até mesmo de informações de origem e regulação da maconha.

Na verdade, uma blockchain pode ser usada para registrar qualquer coisa. Quando digo qualquer coisa, é qualquer coisa mesmo! Qualquer tipo de informação pode ser convertido em um registro em uma blockchain. Nem toda blockchain tem (ou terá) a capacidade de registrar tudo. O Protocolo Bitcoin, por exemplo, assinala um espaço limitado para cada registro — afinal, foi pensado para registrar transações de valores, o que não consome muita memória. E, pelas características das blockchains em geral (mais lentas do que um banco de dados tradicional), nem todo tipo de informação é adequado para esse tipo de registro. Mas a tecnologia, em tese, poderia registrar desde o número da sua identidade, até o vídeo de formatura do seu filho. Qualquer coisa!

Por que isso é importante? Quando falamos em economia, falamos das relações humanas em torno de recursos escassos. A tecnologia do Bitcoin permite programar a escassez em qualquer tipo de informação. Isso não muda apenas o sistema financeiro — isso muda todas as relações econômicas: como empresas são organizadas, como contratos são feitos, como pessoas trabalham e são remuneradas.

Uma mudança radical é quebrar as barreiras de entrada para a economia verdadeiramente global. Hoje, apenas uma elite tem de fato acesso a todas as facilidades de uma economia globalizada. Para um cidadão comum, é praticamente impossível ter acesso ao mercado de investimentos chinês pela manhã, aos serviços financeiros dos EUA pela tarde e vender direitos de propriedade a um estoniano à noite. A haute finance há muito assegura livre circulação no mundo para a elite econômica global, mas a maioria das pessoas tem sua vida econômica e financeira presa ao país de sua residência. Porém, a tecnologia do Bitcoin e dos criptoativos nasceu global. Um endereço na blockchain não tem nacionalidade e pode guardar qualquer tipo de valor ou informação — o que dá ao usuário comum de uma blockchain acesso global ao tipo de valor ou informação que essa blockchain guarda.

Um dos exemplos de maior potencial de quebra de barreiras de acesso é o de identidades autossoberanas, como o desenvolvido pela Uport. Uma identidade autossoberana não é emitida por nenhum país ou governo, e o fato de ser registrada em uma blockchain descentralizada potencialmente retira o controle sobre essa identidade da empresa que a viabilizou (diferentemente do que ocorreria em uma identidade global baseada no Facebook, por exemplo). Isso não significa necessariamente que esse tipo de identidade se opõe à atuação de governos nacionais. Na Suíça, esse tipo de identidade está sendo experimentado pela cidade de Zug para facilitar o acesso a serviços governamentais, e na Finlândia essa tecnologia está sendo utilizada para identificar refugiados e apátridas, e dar-lhes assistência social e financeira. Mas esse tipo de identidade, por ser global, poderia ser porta de entrada para serviços financeiros e jurídicos supranacionais — prestados de forma descentralizada por comunidades organizadas nas blockchains. O próprio mercado de criptoativos, que tanto espaço tem ocupado na mídia recentemente, opera em mercados globais de funcionamento ininterrupto. Hoje, estão ao alcance de qualquer um, em qualquer lugar do planeta.

Mas talvez a mais radical das mudanças seja permitir que não apenas pessoas, mas programas de computador representando pessoas, empresas, ideias e coisas sejam agentes econômicos. Em uma blockchain pública como a do Bitcoin, é possível dar identidade e ativos financeiros a um carro autônomo, a uma praça, a uma música… As opções são ilimitadas. Coisas, ideias, organizações não precisam mais ter dono — elas podem ser donas de si próprias. Um carro autônomo poderá comprar sua própria gasolina, uma praça no centro da cidade poderá ela própria receber doações e usá-las para seus serviços de limpeza e conservação, uma música poderia recolher direitos autorais e distribuí-los entre músicos e compositores…

Para ter uma ideia do potencial disso, considere que muito em breve estará no ar a Internet das Coisas: tudo estará conectado. E tudo terá algum grau de inteligência artificial. Está aberta a porta para uma nova propriedade baseada na gestão compartilhada entre stakeholders, procedimentos automatizados e inteligência artificial. Imagine a geladeira do seu condomínio comprando a carne pro churrasco do próximo fim de semana e rachando a conta com os seus amigos.

Parece uma distante loucura? Então voltemos ao Bitcoin. É uma organização, pois organiza capital e trabalho para produzir um serviço global. Não tem personalidade jurídica e nem nacionalidade, mas foi capaz de mobilizar e remunerar um grupo de elite de desenvolvedores que, hoje, podem se dedicar exclusivamente a contribuir para o ecossistema que criaram. O Protocolo Bitcoin roda graças a computadores que são pagos por manter a blockchain atualizada. Os donos desses computadores não recebem o pagamento diretamente, quem recebe o pagamento são os computadores, que repassam o valor recebido a seus donos. Satoshi Nakamoto nunca revelou sua verdadeira identidade, e desde 2011 ele nunca mais usou seu pseudônimo para se comunicar com ninguém. Seu anonimato foi talvez a última instrução de uso de sua invenção. O Bitcoin é dono de si mesmo. Bem-vindos ao futuro.

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